Após o desabafo divulgado pelo Bom Dia Rio de Lilian de Moura, diagnosticada com câncer de mama em junho deste ano e que teve o tratamento interrompido por falta de medicamentos no Hospital do Andaraí, na Zona Norte do Rio, uma rede de solidariedade se formou para ajudar a jovem. No entanto, outros pacientes também pedem por ajuda e reclamam de problemas no atendimento não apenas para o tratamento da doença, mas também de outras questões.

Após a divulgação do vídeo, Lilian e a irmã receberam diversas mensagens de pessoas querendo ajudar com medicações. Diante da deficiência dos hospitais, voluntários se uniram em uma mobilização solidária para oferecer uma chance de vida a pacientes que não têm como esperar. Depois da reportagem, ela recebeu também uma ligação do hospital.

“A direção do hospital ligou e disse que conseguiu a medicação”, destacou a paciente.

Uma das pessoas que se colocou à disposição de Lilian foi Carmem Araújo, que também passa por um tratamento de câncer.

“Esta corrente é fundamental. Sem este amor, sem esta possibilidade da gente entender que tem pessoas com o mesmo problema ou pessoas que se importam com a dor, é muito importante cada um fazendo um pouquinho esse pouquinho é que vira uma causa muito maior”, destacou Carmem.

Falta de medicação interrompe tratamento de paciente com câncer no Rio

Familiares de outro paciente contam que ele parou o tratamento de câncer no Inca por falta de medicação. José Ricardo Régis, de 50 anos, tem um tumor na cabeça e familiares contam que o tratamento foi interrompido pela falta de temozolamida. Uma caixa com cinco comprimidos tem preço variando entre R$ 2 mil a R$ 4 mil.

O uso do medicamento foi interrompido no dia 21 do mês passado. Na sexta (29), a esposa de José Ricardo chegou a entrar em contato para saber a disponibilidade.

“Eu liguei e me informaram que a medicamento não chegou e não tem previsão de chegar. O tempo não para para esperar a medicação chegar”, contou Fabíola Vargas, esposa do paciente.

Ela contou que mais de 20 pessoas também podem estar passando pelo mesmo problema. Inicialmente, ele deveria ter passado por um processo de radioterapia ao mesmo tempo que a quimioterapia, mas o início foi atrasado por conta de uma longa fila.

O Inca informou que o procedimento de compra já foi realizado e que está em negociação com a fabricante da medicação para entrega imediata. A expectativa é que, na próxima semana, os estoques sejam normalizados.

De acordo com o defensor público da União, Daniel Macedo, o caminho do paciente até o tratamento é longo. Ele usou como base as informações dadas por vistorias do Conselho Regional de Medicina às unidades federais.

“O paciente oncológico demora até nove meses para chegar à rede federal. Um a dois meses para chegar à Clínica da Família, mais três meses para obter um diagnóstico preliminar e aí entra a pior parte: quando ele entra na rede federal, uma parte desses pacientes tem o tratamento interrompido”, explicou o defensor.

Ele explica que o tempo de atendimento é um fator determinante para a cura desses pacientes. O defensor contou ainda que os seis hospitais federais possuem o mesmo orçamento desde 2014 e que a compra de quimioterápicos está atrelada ao dólar.

Daniel Macedo questiona também a falta de concursos públicos desde 2009. Segundo ele, há uma carência de 8.473 profissionais de saúde.

“Hoje, no Hospital Federal de Bonsucesso eu tenho 295 pacientes para um médico oncologista”, destacou Macedo.

O defensor afirma ainda que liminares são constantemente desrespeitadas e que o sistema público de saúde vive a maior crise desde a Constituição de 1988.

Pacientes ficam sem atendimento em hospitais municipais do Rio no fim de semana

Pacientes ficam sem atendimento em hospitais municipais do Rio no fim de semana

Na rede municipal, pacientes reclamam também de problemas no atendimento. Marta de França, que é filha de uma paciente internada com um tumor no Hospital Pedro II, em Santa Cruz, na Zona Oeste, conta que ela sofre esperando, aos 86 anos, por tratamento.

“Vai fazer dois meses que eu estou aqui, esperando uma vaga para ela ir para o Inca. Só que eles ficam falando que vão fazer avaliação, mas nunca a levam para essa avaliação. Tinha uma prevista na sexta, mas ela não foi porque não tinha gasolina nas ambulâncias”, ressaltou a filha da paciente.

Marta faz um apelo por atendimento para a mãe.

“Que ela possa fazer essa cirurgia, um procedimento adequado para ela, porque aqui não tem nada. Aqui não tem material, não tem nada. Eu não sei porque isso não fechou. A minha mãe está morrendo neste hospital”, afirmou a filha da paciente.

Ao longo do domingo (1º), pais que buscavam atendimento para os filhos eram logo informados de que a unidade não podia recebe-los.

Luiz Alberto Guttier tentava socorrer a filha de dois anos, que estava com vômito e diarreia. “A menina está emagrecendo, definhando. E dizem que não tem médico”, ressaltou.

Paloma Santana também encontrou a mesma situação e saiu com o filho sem receber atendimento.

“A gente vai fazer o que? UPA não está atendendo, só está atendendo emergência. E no hospital que era para ter médico não tem. Acho que está com cistite. Não sei, quero justamente saber porque ele é uma criança, não fala”, contou a mãe do menino.

No Hospital Albert Schweitzer, em Realengo, também na Zona Oeste da cidade, também não havia pediatra e nem ortopedista, segundo os familiares de pacientes.

“Chega a criança com ponto na cabeça aberta, manda embora. Já chegou gente com o pé quebrado, manda embora, não tem médico nenhum”, contou Joice Silva.

A Prefeitura do Rio tem mais de 300 unidades de saúde, 52% delas são administradas por nove organizações sociais. Desde outubro, elas não vêm pagando os funcionários porque não recebem repasses.

Os sindicatos dos trabalhadores do setor de saúde moveram uma ação e, na semana passada, a Justiça autorizou o bloqueio de R$ 325 milhões da conta do governo municipal para pagar salários atrasados. Mesmo assim, até a publicação dessa reportagem, eles não receberam.

“Sou técnica da unidade e estou aqui pedindo por mim e meus amigos: socorro. O atendimento está restrito. Muitos não têm o que comer em casa, luz cortada, contas atrasadas, muitos com o psicológico abalado”, afirmou uma carta enviada por um funcionário do Albert Schweitzer.

Apesar das denúncias dos familiares de pacientes, a Secretaria Municipal de Saúde afirmou que as equipes estavam completas no Hospital Albert Schweitzer e no Pedro II. A Prefeitura do Rio de Janeiro afirmou ainda que trabalha para restabelecer os pagamentos.

Carta entregue por funcionária do Hospital Albert Schweitzer, na Zona Oeste do Rio — Foto: Reprodução/ TV Globo Carta entregue por funcionária do Hospital Albert Schweitzer, na Zona Oeste do Rio — Foto: Reprodução/ TV Globo

Carta entregue por funcionária do Hospital Albert Schweitzer, na Zona Oeste do Rio — Foto: Reprodução/ TV Globo

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